24.2.18

Como o Ativismo Negro tem impactado o Mundo da Moda e feito Marcas repensarem seu racismo

A polêmica em torno do posicionamento da Empreendedora e Influencer Yasmim Stevam no programa Encontro com Fátima na Globo e todos os ataques racistas direcionados a ela,  me motivou a escrever sobre esse tema pra vocês pessoas negras entenderem que o nosso ativismo e militância pode parecer caminhar lentamente, mas nossa união e luta tem conquistado muitos espaços no mundo da moda .


Só pra atualizar você que está lendo esse post, e não sabe sobre do que se trata o caso da Yasmim, simplesmente ela foi no encontro e disse o que estamos cansados de saber : que passou por diversas entrevistas de emprego e não foi selecionada por causa do seu cabelo, por usar trança e por causa da cor da sua pele. Relatando um caso de uma entrevista que fez em uma loja da Oscar Freire, rua com as lojas de grifes mais caras de São Paulo , em que o RH deixou claro na entrevista que a aparência dela não se adequava ao perfil do cargo de vendedora da loja. Até aí tudo bem. Nenhuma novidade pra grande parte de nós pessoas negras. O grande problema mesmo foram os ataques racistas que a mesma tem sofrido na internet, como memes sendo criados com fotos do cabelo dela e textões sendo escrito tentando deslegitimar a falada dela, usando a justificativa de que as pessoas devem se adequar a empresa e não a empresa a elas. 

Agora eu te pergunto será mesmo que Yasmim e todos nós não devemos questionar as empresas/ instituições e nos adequarmos a elas ? Pessoas brancas certamente vão dizer que sim, porque são o padrão . Mas nós negros vamos continuar questionando. A maior parte dos direitos humanos que temos hoje se devem a pessoas que questionam e lutam, entre eles : trabalho remunerado para pessoas negras, direito ao voto para mulheres, união civil gay ... Todos esses direitos conquistados por parte da humanidade hoje se devem a pessoas que como Yasmim, ousam questionar.

Mas o que me interessa mesmo nesse texto, é mostrar pra vocês como nossa militância tem feito marcas repensarem seu posicionamento racista.

Entre as marcas famosas, está a carioca Farm, conhecida por  colocar em seus editoriais meninas brancas e magras. Em uma de suas bombadas fotos no Instagram a marca colocou uma modelo branca vestida de Yemanjá, após um post do Rapper Emicida, dizendo que a marca gosta de falar da cultura negra, mas não gosta de pessoas negras, criou-se um grande debate sobre a marca estar se apropriando da cultura negra e ser racista por não ter modelos negras em seu casting. A questão ganhou tanta visibilidade e a marca foi tão criticada, que teve que repensar seu posicionamento no mercado de moda. Na coleção seguinte colocaram um casting de desfile com mais de 50 % de modelos negras em uma coleção com temática sobre a África, abriram as portas para modelos negras nos look books e para vendedoras negras em todas as lojas. A mudança não foi temporária e ainda hoje vemos a marca ser mais democrática com modelos negras e as vendedoras negras nas lojas. Mas nem tudo são flores, né ?! A marca ano passado caiu em outra polêmica racista, criando uma estampa com imagens que remetia ao tempo da escravidão. O caso abriu os olhos dos consumidores para a falta de representatividade de pessoas negras na parte criativa da marca. Como uma imagem que remete ao tempo da escravidão passou por tantas mãos e ninguém percebeu que era ofensiva? A resposta era: não tem negros nos cargos criativos e de decisão da Farm. A marca teve que retirar todas as peças da loja, devido às reclamações de suas clientes nas redes.

Outro caso bem parecido com esse último caso da Farm,  foi com a marca Maria Filó que também criou uma estampa que remetia ao tempo da escravidão. Uma cliente viu na loja, se sentiu ofendida e foi pras redes sociais reclamar. O caso ganhou repercussão e marca também teve que retirar as peças com a tal estampa da loja. Mais um caso em que o ativismo se fez presente.




Todo esse posicionamento nas redes sociais e fora dela tem gerado uma grande revolução no mundo da moda. Quem lembra por exemplo da falta de representavidade negra nas semanas da moda como SPFW, Fashion Rio e semanas de moda paralelas como Casa dos Criadores nos anos 90 e início dos anos 2000? Hoje já vemos estilistas e marcas negras como LAB do Emicida e Isaac Silva nas principais semanas de moda do país, colocando na passarela casting de 90 % de modelos negros. As outras marcas que não tem estilista negro ainda colocam poucos modelos negros nas passarelas ? Sim, mas todo esse movimento criou um novo mercado, onde não só modelos negros aparecem mais nos desfiles, mas hoje vemos mais modelos fora do padrão, modelos mais baixinhos, modelos gordos, modelos mais velhos... Hoje muitas marcas colocam porque perceberam que colocar essas pessoas atrai muito mais visibilidade, os clientes se identificam muito mais.























As revistas também estão acompanhando, mesmo que lentamente, toda essa mudança social que estamos provocando. Quem é leitor da ELLE Brasil por exemplo, percebe que a revista tem uma preocupação maior que as outras  em ser mais democrática, colocando mais modelos negras na capa e nos editoriais. A última revista por exemplo em comemoração aos seus 30 Anos teve uma modelos negra na capa , a bela Nayara Oliveira, fazendo um remake da revista número 1 no Brasil que teve como capa uma modelo branca de olhos verdes. Olha que avanço!  E o avanço nas revistas não fica por conta só de colocar mais modelos negras nas capas e editoriais não. Hoje vemos mais colunistas negras nas revistas, como a  Mestra em Filosofia Política e Ativista do Feminismo Negro Djamila Ribeiro na própria Elle, a Jornalista de moda Luiza Brasil  que esse ano passa a assinar uma coluna da revista Glamour e a Arquiteta e também Ativista do Feminismo Negro Stephanie Ribeiro, assinando coluna da Marie Claire. Três importante mulheres e ativistas  negras, ocupando cargos importantes nas 3 maiores revistas do país! Só lembrando que as mulheres negras são as maiores lideranças e vozes de toda essa revolução.


















Hoje também vemos mais estilista negros ousando criar suas marcas e conquistando espaços através das redes sociais, entre alguns cases de sucesso, não posso deixa de citar nossa colaboradora Maria Chantal, com marca homônima, que inclusive foi citada pela própria ele na edição de 30 anos, a maravilhosa baiana Loo Nascimento da Dresscoração, eu mesmo com a minha marca Snipper, que surgiu atrás da visibilidade conquistada nesse blog! Entre outras marcas que já citei ( você pode conferir na barra lateral do blog ,entre os posts mais lidos).

Enfim, esses são só alguns exemplos de conquistas que estamos obtendo através da descolonização do pensamento racista do mercado de moda brasileiro. Movimento esse que ganha força através de pessoas como a Yasmim que entendem que suas características físicas não definem sua competência, que percebem que  termos como "boa aparência" exigidos por algumas empresas, seja em qual cargo for, quase sempre não contemplam nossas características físicas : cabelo crespo e pele escura, que entendem que sem luta e sem contestação, essas práticas nunca deixarão de existir.


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